quarta-feira, 24 de outubro de 2012

A QUEIMADA. De Ledo Ivo

"Queime tudo o que puder: as cartas de amor as contas telefônicas
o rol de roupas sujas as escrituras e certidões as inconfidências dos confrades ressentidos a confissão interrompida
o poema erótico que ratifica a impotência e anuncia a arteriosclerose
os recortes antigos e as fotografias amareladas.
Não deixe aos herdeiros esfaimados nenhuma herança de papel.
Seja como os lobos:
more num covile só mostre à canalha das ruas os seus dentes afiados.
Viva e morra fechado como um caracol.
Diga sempre não à escória eletrônica.
Destrua os poemas inacabados, os rascunhos, as variantes e os fragmentos que provocam o orgasmo tardio dos filólogos e escoliastas.
Não deixe aos catadores do lixo literário nenhuma migalha.
Não confie a ninguém o seu segredo. A verdade não pode ser dita".

(Ledo Ivo, poeta, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras)

Nenhum comentário:

Postar um comentário