terça-feira, 30 de abril de 2019

A aranha e o leão


[Microconto]
A aranha e o leão
De Rodrigo Ribeiro Cavalcante
–Mirtes! Você está aí?
Para quem não conhece, Mirtes é uma aranha. Sim! Isso mesmo que você está pensando: um aracnídeo. Mas não vou falar da espécie. Nem precisa. Basta-me dizer que ela, a Mirtes, acompanha-me a toda jornada de produção, de um tempo para cá. Olho, agora, exatamente para ela. Há todo tipo de texto sobre os animais; em literatura, aí nem se fala. Porque já se escreveu, e bem, sobre tudo e sobretudo. Basta lembrar – ou ler – o Teleco, o coelho, de Murilo Rubião. Aliás, se quiser parar por aqui e ir conferir o citado conto, O coelhinho, muito melhor será para você. Mas, ... Mirtes é minha companheira. Aqui quase ninguém a conhece. No entanto, aprendi a gostar dela, da Mirtes. Creio que ela me incentiva. Olho agora para ela; e ela, acho, olha para mim. Quiçá queira dizer algo. Abriu os olhos exatamente neste instante. Vejo com detalhes o que não vi antes. Parece ter-se mexido. Apontando a envergadura para mim. Os olhos, pretos brilhantes, aumentaram. Ela tem o privilégio de só olhar. Contemplar. Inclusive ao lado, vinte e quatro horas, de duas canecas. Uma com o dizer: “500 palavras por dia.”; na outra: “Escreva a história que só você pode contar.” Depois esclareço a origem de tais objetos, que me são caros. Há quem diga que os bichos atrapalham a vida; pode ser que sim, pode ser que não. Nesse momento, ela, a Mirtes, ajuda-me a viver. Porque me tirou de uma missão árdua e desgastante: preparar a declaração de rendimentos para o leão. “Sim, entendo. Mas o senhor não acha que esses limites para dedução estão defasados? Que já há uma sobrecarga mensal enorme? Que poderia ser assim, assim, assim...!” Quando a vi, a Mirtes, desviei o caminho: “Mirtes, você está aí mesmo?” Claro, sei que preciso reaprensentar-me ao fisco. Afinal, faço isso todos os anos. Duas situações de que não escapamos, segundo meu pai: da morte e dos impostos. Mas, pelo menos, neste exato momento, vivo! E vivo bem! Fazendo exatamente aquilo de que gosto. E você, já parou para pensar nisso? Em ter um animalzinho? Olhe, é possível ser vantajoso. No mínimo, pode adiar um pouco a conversa com a fazenda pública. A Mirtes fica, sempre, sobre uma pedra trabalhada de vidro, em que há o meu nome registrado, no interior do troço. Ganhei, por sorte. Também há para ela, a Mirtes, outra vantagem: estar sempre sobre uma peça de vidro. Não por conter meu nome. Não por isso! Mas por ser de vidro e porque deve ser confortável estar ali. Precisa ver. Aliás, será que é bom ser um animal? No mínimo, não precisa interagir com o fisco. Essa já é uma grande motivação para ser um bichano. Pensando bem, nem precisa agir ou, apenas reage quando quer. Deve haver muitas vantagens em se incorporar um animal. Começa com o fato de não ter pecado ou não alimentar sentimento de culpa. Não precisar pensar no amanhã; os limites são os estabelecidos pela natureza; aqueles de que nós racionais também não nos livramos. Sei que você vai dizer: “nada, ser bicho é enfrentar uma salva; e lá também tem leão. Melhor a racionalidade!” Entendo. Mas, meu receio é já estar – eu – numa selva. E há tempos. Escapando aqui; rodeando acolá, sem nunca resistir ao leão. E você? Sei não! Preciso livrar-me dessa guerra. A Mirtes, neste exato momento, olhou para mim. Chegamos próximos ao horário de uma refeição. Outra vantagem: em regra, o comer, para ela, está sempre ali, à mão. “É isso, Mirtes?” Para ela, parece que sim. “Mirtes?!” Creio ter ela ido à comilança. Já eu...
–Entendo, senhor,..., meu prazo se vence hoje, dia 30, é isso?

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