terça-feira, 7 de maio de 2019

Asfixia


[Microconto]
Asfixia
De Rodrigo Ribeiro Cavalcante
Helmer demonstrava cansaço. Dois filhos, um marido, uma rotina de lar e trabalho, tudo esmagador. A vida mudou muito, notadamente para a mulher. Tem horas que a vontade é sumir, e voltar depois de tudo resolvido. Voltar? Tal exaustão sentida por ela também tinha, e muito, relação com o afeto conjugal. Vinte anos de casados não dois carnavais. Acumulam-se êxitos, mas também frustrações e desânimos. Era um casal normal, que demonstrava equilíbrio. Mas como para tudo, os desgastes são rotina mesmo. Nessa hora, parcimônia.
–Helmer é calma.
–O casal é tranqüilo!
Pois é. Muitas vezes a aparência não denuncia as angústias de um relacionamento. Quem não as tiver – as angústias – parabéns! É comum o autoengano passar a ser regra; noutras, nem mesmo se percebe o real. Helmer repensava a sua vida. Seriam interessantes novas experiências? Mudar!? Não que tivesse algo em vista. Não mesmo. Ela tinha ciência dos seus compromissos. E isso em tudo. Aliás, essa era uma percepção mútua, como deve ser. Nem mesmo houvera qualquer interesse outro, de parte a parte. Não! Mas parecia estar surgindo um reclame ao novo pelo novo, por parte de Helmer. Algo para ela somente, em que pudesse pensar a vida; não precisar fazer; que lhe fosse possível sentir-se, a si mesma e sozinha, apenas, em silêncio. E lhe passou a vir, a todo instante, a vontade da fuga, talvez sem que ele, o marido, percebesse. Até por seu perfil acomodado. Era a ele sempre mais oportuno pensar que tudo ia, que o tempo é o tempo, e que o mais, ou o menos, é resultado da vida. Helmer não. Mulher é menos pragmática, quando o tema é o sentir o existir. A rotina do mundo lhe sugara tudo a ponto de perceber que, embora o casal sempre nutrisse o bem-querer e respeito recíprocos, fosse preciso um compromisso consigo mesma. Até o dia em que, sentindo crescer o cheiro da liberdade, ela tomou uma decisão firma: iria ter uma conversa com o marido. Terça-feira à noite, 7 de maio, coincidentemente dia do silêncio. Ele chega a casa, no horário de costume. O mais velho havia saído. Iria fazer uma atividade escolar na casa de um amigo, e por lá dormiria, para a sequência do dia seguinte. Ao mais novo, desejou-lhe boa noite, porquanto já estava embalado ao sono. Disse à mulher que tomaria um banho. E foi. Ela, ao tempo em preparava coisa pouca ao jantar, aguardava-o. Ele, poucos minutos depois, adentra à sala de jantar. Um semblante alegre; algo que aqui e acolá lhe era comum. Veio em traje sutil.
–Quer queijo? Fiz para você.
–Não, obrigado, meu amor!

Ela também havia adentrado ao lar fazia pouco tempo. Ele avistou-lhe o desenho do vermelho de sua boca, em batom-ardente. Fez-lhe um carinho no pescoço; beijou-lhe os lábios, suavemente, mas com uma penetração de paixão que a ela ressurgiu um sentimento interior a lhe trazer uma sensação quente no corpo todo. Ele, no ato, disse-lhe algo no ouvido, acariciando seu busto, como nunca. Ela, ao sentir disparar o coração ofegante e, lembrando-se de uma lingerie adquirida meses atrás, riu e disse-lhe: “Amor, aguarde-me só um instantinho!”

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