sexta-feira, 19 de junho de 2020

CADEIRAS PROIBIDAS

Cadeiras proibidas
Esses dias li uma coletânea de estórias escrita por Ignácio de Loyola Brandão, em que um dos textos muito me chamou à atenção. Falo do conto intitulado ‘Os homens que se transformavam em barbantes’. Num enredo prosístico-ficcional, o autor descreve uma cidade em que as pessoas, da noite para o dia, transformavam-se em barbantes, ou em vidros, tornando-se frágeis, sem que se tivesse a menor explicação para os fatos.
Vindo de Brandão, só dá para esperar realmente coisa muito boa, de texto. Mas a estória me atinou o raciocínio, porquanto bem similar aos tempos em que vivemos, de pandemia. Desenhada a ficção, talvez, lá pela década de setenta, ali se via um povo buscando a acostumação com a vida daquela forma, em que o medo pairava em todos. O detalhe era que os casos se avolumavam; os jornais noticiavam e, a certo momento, foi percepção dos viventes a necessidade de se intensificarem os cuidados, sobretudo ao andar na rua, porque o problema poderia surgir a qualquer momento, esvaindo-se o corpo, muitas vezes sobrando apenas o cabeça. Até do sentar numa cadeira, mesmo na ambiência externa e ao vento, depois é preciso, dizem, proceder a uma higienização imediata, comparativamente àquela cidade historiada.
A secretaria de saúde local fazia inspeção na água, no ar, para em tudo se buscar o antídoto. Investigações nada concluíram. Tudo embalde, para aquele momento. No mundo real, a despeito de se saber existirem cientistas enfronhados em tubos de ensaio para a busca de solução à Covid-19, a impressão que se tem é a de que o mundo começa a voltar às atividades, em que a sensação é no sentido de se terem grandes receios para o problema. E em tudo isso precisando as sociedades se acostumarem com esse estado de possibilidades de assimilação da doença, ou para sair ileso do problema, ou para enfrentar sabe-se lá o quê. No enredo, “a cidade parece estar se habituando com a possibilidade de alguém se transmudar” sem que haja mais “surpresa quando um barbante é levado pelo vento ou, em dias de chuva, é tragado pela enxurrada.” Atualmente esse é, no geral, o sentimento: é preciso voltar às atividades, no que seja possível, trazendo o noticiário, a todo momento, casos novos, para os quais o resultado será inesperado. E com isso vem a percepção de que quase tudo é proibido; é preciso evitar tudo; é imprescindível o cuidado máximo.
No ambiente ficcional, os homens, tornando-se frágeis, viam-se prostrados, a tal ponto em que o autor indica o cenário em que “a qualquer momento, o vírus (seria vírus?) podia atacar”. Para o estado da vida presente, também se tem um vírus, de quem não se sabe o endereço, de que forma se trasmuda, para onde vai, quantas vezes ainda atuará nos organismos. Tudo muito incerto, para um povo que precisa interagir, inclusive para as tomadas de decisões relacionadas às futuras melhores formas de existência. Isso embora haja os que não acreditem em um novo mundo. E não são poucos. O livro que encarta o reportado conto se intitula ‘Cadeiras proibidas’.
[Rodrigo Ribeiro Cavalcante. Publicado hoje, 19 de junho de 2020, no Jornal O Estado, página opinião, fl. 2]

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