sábado, 20 de junho de 2020

CANTO DOS NÃO EXILADOS

Canto dos não exilados



Dias atrás a escritora Ana Miranda discorreu, em crônica, sobre a vida dos livros e o aumento do consumo desse importante guia humano, em período de pandemia. Dizia ela que o caderno de letras foi atraído por muitos, os quais, em casa, inclusive crianças e adolescente, buscam nas palavras escritas uma forma de viver e ver a vida. Grande notícia. O livro tem um cheiro, uma paginação, cores e, sobretudo, a possibilidade de estar ali sempre, sem qualquer risco de pane ou desaparecimento fortuito.

Todavia, de um tempo para cá tenho refletido sobre o que se tem, ainda, de tempo de vida para livro físico. Há um paradoxo claro nessa situação: vários escritores, muito bons inclusive, nascem todos os dias no mercado; textos excelentes são escritos de todo lado e ramo. Mas ronda esse risco de desaparecimento do volume palpável, surgindo, em substituição, o compêndio eletrônico. A vida no virtual tem seu valor: o processo eletrônico é uma revolução positiva; às possibilidades de troca de informações e interação, via meio cibernético, não se tem volta.

No entanto, tais aspectos não podem exilar o livro. Porque sempre penso que tudo que possui registro material fica para sempre, algo para o que não se pode dizer para as anotações eletrônicas, que certamente uma hora se vão sem, outra contradição, backup. É como o beijo ou abraço, que precisam existir de modo concreto; é como a democracia, a qual, além do efetivo papel constitucional, precisa ser alimentada e estar ali à vista, para nunca ser esquecida ou ameaçada. Creio que o livro realmente físico poderia resolver as truculências políticas vividas atualmente, ou poderia amenizar as desavenças entre gestores-representantes dos Poderes da República; ou para inibir indícios de corrupção em vários assuntos, inclusive sanitários, assimilando-se, no trato com o livro, posturas que deveria ser totalmente diferentes do que se vê, atualmente. Não uso letras aqui em causa própria. Jamais. Refiro-me ao que está por vir, pois, como dito, há excelentes escritores produzindo todos os dias.

Sussene Bach, nascida em Munique no início do século vinte e amante dos livros, viveu no Brasil por várias décadas, em face de exílio, algo terrível para a humanidade, porquanto permeia sensação de desproteção e falta de alicerce. A impressão que sinto é essa: a eventual futura ausência de registros fortes, firmes e no papel, para o passado, presente e futuro, quando se anuncia, ainda que paulatinamente, o sumiço da obra física. Algo que certamente não ocorrerá para muitos, sobretudo para os apreciadores desse objeto profundo, imbatível, que não se deixará vencer pelo mundo cibernético.

A referida escritora estrangeira deixou uma livraria funcionamento, e ativa, ainda, no Rio de Janeiro, em que se tem como slogan a expressão, em Latim, vertida ao Português, que diz “o amor com os livros nos liberta”. E deve ser isso, sem que seja mais possível no mundo se falar em exílio, quebra de regras democráticas, desrespeito a etnias, classes, cor ou agressão a todas as formas de opção de vida, para tudo isso sendo imprescindível que ao livro físico seja reverenciado o canto dos não exilados.
[Essa crônica foi escrita e originariamente publicada no Jornal O Estado, edição de 5 de junho de 2020. Rodrigo Ribeiro Cavalcante]

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