sexta-feira, 26 de junho de 2020

O som e o silêncio


O programa televisivo enredava uma pauta atinente à produção do violino. No contexto, os entrevistados eram um jovem professor e tocador do instrumento e um músico, já idoso, dono de uma oficina e fabriqueta de violinos. Tudo antes da pandemia, tendo a situação me remetido, mais uma vez, aos atuais momentos e, especialmente, à vida pós-retorno.
Num país como o Brasil, de diversidades em tudo e para sempre, não é fácil se estabelecer um regime econômico-político de produção e pensamentos. Atividades mais artesanais, como as que se viam no programa, além do muito da economia brasileira, certamente vão sentir efeitos sérios e drástico, com o advir da Covid-19.
Para uns, a opção seria o comunismo/socialismo. Algo, para esses, mais justo e dividido. O Estado assumiria os meios de produção, a fim de que se estabeleçam equilíbrios. Pode ser que sim, pode ser que não. Porque há os que não têm fé no Poder Público produzindo aquilo que é essencialmente afeto à iniciativa privada. É que o homem precisa de desafios, recompensas, embora também necessite de muito controle efetivo. Isso não quer dizer, todavia, que o Estado precise sair de cena. Não mesmo. Mais ainda em períodos de extremada recessão, como a que já se vê e se anuncia com mais força, para os próximos meses.
No entanto, num espaço territorialmente continental realmente não é simples um guia de ações e projetos. E, na ambiência polarizada vivenciada recentemente na democracia brasileira, que perdura, não se enxerga, à vista, uma mão que entorne um viés mais cadenciado, de ideias que tanto indiquem possibilidades efetivas e reais ao mundo privado, mas que também pensem, e bem, em políticas públicas. Porque o país precisará pensar em investimento público, para afetar direta e positivamente setores como saúde, educação, segurança, entre outros serviços essenciais que somente podem ficar a cargo do Estado.
Para tanto, podem surgir ideias vocacionadas ao liberalismo, que até podem ser viáveis, se atribuídas àquela mão que trabalhe cadenciadamente. Isso porque se pode atribuir ao ideário liberalista tudo que disser respeito, entre outros fatores, a: eficiência na produção, liberdade político-econômico-social, plena liberdade sindical, absoluta vida democrática. E isso exatamente pelo fato de que à filosofia liberal, evoluída, cabe a injeção de políticas públicas naquilo que tenha relação direta com a evolução do ser, tendo-se como exemplos clássicos tudo que disser respeito à educação e saúde da população, ainda que com pesos e contrapesos.
A impressão que se tem, realmente, é a de que há um reclamo de um povo, gritando por meio de som elevado, eivado de vontade extrema no sentido de que o Brasil, um dia, dê certo. Contudo, para esse som há um revide de silêncio, da parte daqueles que poderiam ser aquela mão, poucos, é verdade. Não é para qualquer um e, parece, não é para os que estão aí, atualmente, nos cargos políticos. “O som e o silêncio” é o nome aquele programa televisivo.
[Rodrigo Ribeiro Cavalcante. Artigo/crônica publicado, também, no Jornal O Estado, edição de 26 de junho de 2020]

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